terça-feira, 24 de abril de 2012

Adão e Eva 

Olhámo-nos um dia, 

E cada um de nós sonhou que achara 

O par que a alma e a cara lhe pedia. 

- E cada um de nós sonhou que o achara... 

E entre nós dois Se deu, 

depois, o caso da maçã e da serpente, ... 

Se deu, e se dará continuamente: 

Na palma da tua mão, 

Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado. 

- Meu nome é Adão... 

E em que furor sagrado 

Os nossos corpos nus e desejosos 

Como serpentes brancas se enroscaram, 

Tentando ser um só! Ó beijos angustiados e raivosos 

Que as nossas pobres bocas se atiraram 

Sobre um leito de terra, cinza e pó! 

Ó abraços que os braços apertaram, 

Dedos que se misturaram! 

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri, 

Sede que nada mata, ânsia sem fim! 

- Tu de entrar em mim, 

Eu de entrar em ti. 

Assim toda te deste, 

E assim todo me dei: 

Sobre o teu longo corpo agonizante, 

Meu inferno celeste, 

Cem vezes morri, prostrado... 

Cem vezes ressuscitei 

Para uma dor mais vibrante 

E um prazer mais torturado. 

E enquanto as nossas bocas se esmagavam, 

E as doces curvas do teu corpo se ajustavam 

Às linhas fortes do meu, 

Os nossos olhos muito perto, imensos, 

No desespero desse abraço mudo, 

Confessaram-se tudo! ... 

Enquanto nós pairávamos, suspensos ]

Entre a terra e o céu. 

Assim as almas se entregaram, 

Como os corpos se tinham entregado, 

Assim duas metades se amoldaram 

Ante as barbas, que tremeram, 

Do velho Pai desprezado! 

E assim Eva e Adão se conheceram: 

Tu conheceste a força dos meus pulsos, 

A miséria do meu ser, 

Os recantos da minha humanidade, 

A grandeza do meu amor cruel, 

Os veios de oiro que o meu barro trouxe... 

Eu, os teus nervos convulsos, 

O teu poder, A tua fragilidade 

Os sinais da tua pele, 

O gosto do teu sangue doce... 

Depois... Depois o quê, amor? 

Depois, mais nada, 

- Que Jeová não sabe perdoar! 

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada... 

Continuamos a ser dois, 

 E nunca nos pudemos penetrar! 

__ José Régio__

2 comentários:

  1. Texto lindo - um misto de benção e maldição! Deu pra sentir na pele o que o autor pretendeu dizer em "continuamos a ser dois. E nunca pudemos nos penetrar."
    1 beijo do amigo,

    the Osmar.

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  2. Amei esta poesia.Ganhei de um amigo que nem sabia que tinha o blog e disse à ele que iria postar aqui.Realmente o poeta foi bem feliz nas suas palavras e tentei ser sutil tbm na escolha da imagem.Grata pela visitinha e pelo carinho sempre.Bjins

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